Moradia da Rua Mercúrio: "Ninguém vai assinar desligamento nenhum"
A moradia provisória da Rua Mercúrio, 518, abriga 5 quartos, 5 banheiros com 5 chuveiros, duas salas de TV, uma cozinha comunitária e 20 moradores.

Edinaldo Araújo da Silva, 29, está há um ano na moradia e não aceita voltar para um albergue: "Nos albergues há regras para tudo, filas para tudo. Aqui eu tenho mais liberdade. Posso entrar e sair a hora que eu quero, posso trabalhar à noite, posso estudar mais tranquilamente". Edinaldo veio de Pernambuco e está há oito anos em São Paulo, lutando por uma moradia. Já morou no albergue Portal da Esperança, em casas ocupadas e até mesmo no edifício São Vito, por dois anos, pagando aluguel. Quando este prédio foi desapropriado e desocupado Edinaldo estava viajando e por isso não foi cadastrado em nenhum programa habitacional da prefeitura e perdeu todos os seus pertences (móveis, roupas e utensílios domésticos). Agora, fazendo côro com seus companheiros da Rua Mercúrio, ele afirma que "se as autoridades não tomarem uma providência vamos precisar ocupar e dominar a casa".

Edson Porfírio da Silva, 52, também completou seus 12 meses na moradia provisória e está disposto a resistir e lutar pelo seu direito a uma moradia definitiva. Ele está há 25 dias desempregado, após ter sido cortado da Frente de Trabalho da prefeitura. O contrato da Frente era de nove meses, mas ele e outros trabalhadores foram cortados antes de completarem cinco meses de serviço. Antes ele tinha uma banquinha de bijuterias, mas teve sua mercadoria apreendida duas vezes pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) e passou a entregar panfletos, ganhando R$ 15 por dia. Pela Frente de Trabalho ele fazia a manutenção do Balneário Cambuci, recebendo R$ 336 por mês e se queixa do curso "profissionalizante" a que foram submetidos: "Era um curso de faxineiro, por 10 dias, não tirei proveito nenhum desse curso". Edson já morou nas ruas e considera o retorno ao albergue "uma regressão". "Nós precisamos ser reintegrados na sociedade".

Pedro Rocha, mais conhecido como Índio, tem origem em uma aldeia humaitá, da cidade de Bacia de Água Branca e está há três anos em São Paulo, onde sobrevive vendendo artesanato. Ele ainda tem direito a sete meses na moradia da Rua Mercúrio e pretende voltar para a aldeia, mas acredita que a luta pela continuidade do programa é "uma luta coletiva, de todos". "Se não me engano, a última política habitacional que tinha uma coerência foi da Erundina, que fazia [casas] por mutirão. O que vejo aí, o prefeito, o governador, todo mundo se esquiva. Constróem [casas pela] CDHU, que são caríssimas, que não interessam ao morador de rua, ficam tirando moradores de rua, tentando colocar em albergue, tentando mandar embora, que é uma forma de exportar a pobreza". Ao comparar a moradia provisória com o albergue, Índio fala do espaço: "aqui você pode se organizar, principalmente para mim, que escrevo, e aqui posso escrever a qualquer hora". Índio está escrevendo um livro infantil chamado "Quinha, a macaquinha".

Autor da carta que vem mobilizando as 11 moradias provisórias de São Paulo, Sebastião Nicomedes explica que antes o programa previa "promoção de cidadania e estímulo à conquista de autonomia". Mas na terça-feira, dia 4 de abril, em assembléia com os moradores, a técnica da SAS Tiradentes comunicou que aqueles que já completaram 12 meses na moradia provisória precisam deixar o local, porque "a roda tem que continuar rodando". "Ela falou que nós precisamos sair, para entrarem outras pessoas que estão no albergue, então nós vamos para o albergue e a roda vai rodando", explica Sebastião. Mas "ninguém aqui está com condições psicológicas e pessoais de voltar para um albergue, não se enquadra mais com o perfil de um albergado. Daí o motivo da resistência de todos nós. Seria desconstruir tudo isso. A gente tem roupas, tem sapatos, tem emprego, tem coisa que a gente conquistou e vai perder tudo isso se voltar pro albergue". Os armários dos albergues têm aproximadamente 50 x 30 cm e têm limite de peso. Além disso, Sebastião conta que no albergue eram tratados como crianças, enquanto na moradia provisória são eles quem gerenciam a casa, que se responsabilizam pela limpeza e pela alimentação. "No albergue tudo o que a gente aprendeu, desaprende".

 

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